Mensagens

Os fogos e a política – Delenda est Carthago

A dimensão da dor e a emoção da tragédia podem conduzir-nos à revolta e à frustração, mas não justificam a chantagem política, o oportunismo mórbido e o desassossego que procura criar o caos onde germinam os populismos.
Na pungência do luto que atingiu o País, ouvir um ex-PM a falar da vergonha que sente do Governo a que se julgava com direito; ver a ex-ministra da Agricultura que assinou a falência do Grupo GES/BES, a pedido da amiga e colega das Finanças, a falar de ética e responsabilidade (até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?); e olhar a direita que teve em Cavaco, Passos e Portas os epígonos do salazarismo, é reviver um passado recente, onde a destruição do Estado social que restava esteve à beira de consumar-se.
Que os últimos fogos ateados por todo o norte do país tenham, por coincidência, surgido com inaudita violência e mortíferas consequências na véspera do dia em que as chuvas e a descida de temperatura estavam anunciadas, é um estranho acaso que lembra o Verã…

A esquerda e a mulher

Surpreende como a Humanidade progrediu tanto, renunciando a metade de si própria, ao longo de milénios. Há quanto tempo poderia ter chegado onde se encontra, e como seria se a igualdade de género fosse, desde o início, um axioma?

Que raio de preconceito, que as várias religiões assimilaram, terá convencido uns brutos da pré-história de que a sua força física lhes permitia a prepotência sobre o sexo que os complementava e lhes assegurou a perpetuação da espécie?

Como é possível, ainda hoje, haver quem, nascido de pai e mãe, e tendo procriado filhos e filhas, reclame superioridade e admita discriminar progenitores ou descendentes, em função do sexo?

Sendo as coisas o que são e a evolução o que é, a mulher tem de ser muito melhor para poder competir com o homem. Foi talvez o estigma ancestral que a fez triunfar, pelo sacrifício e obstinação, em campos que o macho julgava privilégio seu. Foi assim que, da filosofia à ciência, da literatura à matemática, da política às artes, surgiu uma pl…

Humor

Imagem

Rui Rio e o País

Imagem
Não conheço de Rui Rio o suficiente para me pronunciar sobre a sua competência para liderar o PSD, nem cabe a um adversário imiscuir-se na luta interna de um partido cujo presidente se arrisca a ser PM se se equilibrar no cargo até ao momento certo.

Foi autarca do Porto, onde terá feito uma gestão honesta, o que, não sendo suficiente, é positivo para as suas pretensões a PM. A incapacidade de um escrutínio exigente pelos únicos partidos de onde saíram primeiros-ministros conduziu a clamorosos desastres. É o que acontece quando as clientelas estão mais interessadas em vitórias eleitorais do que nos destinos do País.

É inútil falar dos defeitos que o PSD não deixará de lhe apontar e ampliar, para defender Santana Lopes.

Para já, o País deve a Rui Rio ter liquidado a carreira política de Luís Filipe Meneses, a única sanção a que um político de direita, fora do flagrante delito, parece estar sujeito, e, indiretamente, ter poupado a Misericórdia de Lisboa à continuação da gestão de Santan…

Incêndios

Quando se julgava que o desastre já não podia ser maior, ardidas as florestas, devastadas as aldeias, o fogo chegou às cidades e consumiu casas no tecido urbano, depois de deixar corpos ardidos por onde passou.

Nas estradas houve pânico e as famílias, que ficaram com o telefonema interrompido de filhos ou pais, entraram em ansiedade até à chegada, horas depois, de novo telefonema a anunciar a aproximação. Mas foi no teatro dos incêndios que o desespero atingiu o auge e onde arderam vítimas, sem serem ouvidas, com os parcos pertences que defendiam.

De nada valeram as procissões e preces a pedirem a chuva anunciada pela meteorologia, e que não chegou. Nem os milagres previsíveis acontecem!

Nunca a meteorologia, a incúria e a obstinação por queimadas, que há séculos se fazem no mês de outubro, ainda que proibidas, se aliaram para dar à calamidade a dimensão trágica do dia de ontem.

O peso da tradição rural só rivaliza com quem, por interesses imediatos, nega alterações climáticas e põe e…

Associação Ateísta Portuguesa - Carta ao PR

Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa Palácio de Belém – Calçada da Ajuda - belem@presidencia.pt 1349-022 Lisboa (Portugal)

Excelência
A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) sente-se perplexa com as afirmações que a RTP lhe atribui, alegadamente feitas em Fátima e que, a seguir, se transcrevem:
“É em nome de Portugal, de todo o Portugal e de todos os portugueses, dos crentes e não crentes, católicos, cristãos, não cristãos, de todos eles, que aqui está o Presidente da República, cumprindo uma missão nacional”. A serem verdadeiras as insólitas afirmações, o Estado laico, condição essencial de uma democracia, fica, na opinião da AAP, irremediavelmente comprometido com a atitude do PR que, de algum modo, estabelece uma lamentável confusão entre as funções de Estado e os atos pios do foro individual.
Que Sua Excelência acredite que, há 100 anos, o Sol bailou ao meio-dia na Cova da Iria, com uma réplica privada para o Papa, nos jardins do Vaticano, é um direito que a AAP defende, mas que participe, em…

Mensagem solicitada para os meus camaradas do BCAÇ. 1936

Mensagem aos camaradas do BCAÇ. 1936

Queridos camaradas:

Há 50 anos, a bordo do Vera Cruz, deixámos o Cais de Alcântara, rumo a Moçambique, na pior e mais inútil viagem das nossas vidas, para perdermos ingloriamente alguns dos que foram connosco e regressarmos os que sobrámos, com feridas profundas, a sangrar por dentro, 26 meses depois.

O nosso sacrifício merecia melhor causa. Luís Canejo Vilela, a grande referência afetiva e ética, bem como Artur Batista Beirão, que os militares de Abril fizeram general, eram dignos de melhor missão. No fundo, todos fomos vítimas da guerra insustentável que a ditadura fascista não compreendeu e persistiu em prolongar.

Desse tempo remoto, por sorte nossa e mérito de quem nos comandou, não carregamos memórias de atos que nos envergonhem, apenas a mágoa inapagável dos que lá ficaram e o sentimento da inutilidade do nosso sofrimento e do tempo perdido das nossas vidas.

É por isso que podemos, de consciência tranquila, celebrar a reunião da família que n…