José Sócrates: a entrevista, as obscuridades do resgate e as responsabilidades…

A entrevista de José Sócrates, ontem, na RTP 1, girou à volta de ‘narrativas’. Que tem sido feitas, que devem ser (re)feitas e que malgré tout (ou après tout) ficaram por fazer.
Este reaparecimento perante a opinião pública nacional foi (é) importante porque representou(a) uma ‘outra versão’, frequentemente desfocada pela 'narrativa oficial'.

Deu para perceber que o ex-primeiro-ministro, durante os 2 anos de estudos em Paris andou a ler Roland Barthes.

De facto, o entrevistado, esforçou-se por tentar encontrar - na acção passada - factores (princípios) de casualidade, nem sempre fáceis de explicar ou de demonstrar.
Dentro da dissecção de uma realidade passada conseguiu envolver e destrinçar em personagens naquilo que é um denominador comum de todas as narrativas: a intriga.

Neste terreno o alvo ‘major’ foi o Presidente da República liminarmente incluído – e ao arrepio da ‘narrativa oficiosa’ - naquilo a que podemos chamar o ‘roteiro da conspiração’. Todavia, resta aguardar por cenas dos próximos capítulos…

Por outro lado, a ordem temporal que colonizou a entrevista foi - por culpa dos entrevistadores e coincidente com o interesse do entrevistado - frequentemente perturbada por mecanismos de ‘switchback’, desnecessários, repetitivos e, por vezes, enviesados.

Tomemos como exemplo a génese da crise política que motivou a queda do XVIII Governo Constitucional e o ‘pedido de auxílio externo’. Deixemos de lado o mais importante desta entrevista: a denúncia do modelo ‘cooperação institucional’ propagandeado e invocado repetidamente pelo Presidente da República.

A crise política que o País viveu em 2011 não pode ser emparedada num tempo psicológico onde o ‘ajustamento’ com a realidade – que nunca tendo ocorrido conforme o ‘previsto’ – é difícil de representar na actualidade com rigor e objectividade.

Ninguém consegue emitir um juízo preditivo sobre o valor intrínseco do PEC-4, nem avaliar da sua ‘resiliência’ (termo que entrou na gíria financeira) perante a onda neoliberal que varria (e continua a ‘assaltar’) a Europa. O distanciamento que clarifica posições, permite dar novos sentidos aos acontecimentos, não elimina nem substitui a vivência.

Numa coisa José Sócrates aparece, com seu regresso ao debate político, cheio de ‘razão’. A conjuntura actual ‘justifica’ o seu titânico (e obstinado) esforço, desenvolvido em 2011, para tentar evitar o pedido de resgate, i. e., a vinda da troika.

Os resultados estão à vista e podem ser ‘cavalgados’ por todos, mas Sócrates foi, de longe, o que mais tentou batalhar por ‘outra’ alternativa. De facto, hoje, vemos com clareza para que tipo de assistência externa para que o País foi empurrado – e de que José Sócrates mostrou ter uma clara percepção das consequências – que retirou armas e instrumentos económicos e financeiros necessários para definir opções políticas nacionais e europeias, visando a ultrapassagem da crise, evitando tantos e variados traumas, como os que actualmente vivemos. Tal constatação, por si só, não confere consistência às opções (de austeridade ‘controlada’) constantes no PEC-4. Na verdade, a sensação residual e remanescente será a de que esse PEC não passaria do início de uma escalada. O rastilho de uma ‘espiral de austeridade’ que levaria – sempre! – a uma profunda recessão. Estamos, portanto, a falar de gradientes. A tentar diferenciar entre o mau e o péssimo. O preço que nos seria exigido passaria por um empobrecimento (es)forçado, não gizado para ser uma (ou a) solução mas, antes, para funcionar como a ‘punição necessária’.

Um outro aspecto, diz respeito aos meandros que rodearam a apresentação do PEC-4 em Bruxelas. Ninguém se pode considerar – após a entrevista - suficientemente esclarecido acerca das omissões, simulações e, eventualmente, traições. A ainda nebulosa tramitação deste processo pode ser considerada sob diversos ângulos, entre eles, aqueles que são mais visíveis como a soberana oportunidade de proporcionar a ‘ida ao pote’. Há, todavia, outros aspectos ocultos, uns serão circunstanciais, outros poderão ser fundamentais para enquadrar as actuais opções.

Infelizmente, a entrevista de ontem – neste aspecto como em relação a outros que não são abordados aqui – não clarificou totalmente a situação. O enigma sobreviveu à entrevista. A História não deixará de ‘escrever’ a(s) sua(s) narrativa(s), uma vez liberta de todas as inculcações. Essa é uma prerrogativa científica e 'filosófica' que, evidentemente, não cabe numa entrevista.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Divagando sobre barretes e 'experiências'…

26 de agosto – efemérides