Donald Trump: o roteiro de Paris a Detroit…

Washington está a ferro e fogo. Trump revela-se como o grande incendiário deste ambiente infernal. Nada correu bem na sua 1ª. digressão ao estrangeiro. Terminou ‘espingardando’ para todo o lado: contra o superavit alemão, contra os aliados da NATO e rematou com um patético negacionismo das alterações climáticas e dos acordos de Paris.
Os astros começam a alinhar-se no firmamento. Pouco resta para chegarmos à interdição por incapacidade mental. O ‘impeachement’ começa a tornar-se uma redundante figura de retórica. Bastaria um mero processo de interdição por inadaptação ao cargo (a funções públicas). Um caso de gritante ausência de idoneidade intelectual.

Provavelmente não existirá esta figura na jurisprudência constitucional americana mas a metodologia não é desconhecida e foi repetidamente usada pelo próprio nos reality shows. Alguém terá um dia de lhe dizer: “You‘re hired!”. Esse ‘alguém’ seria em primeiro lugar a sua embotada consciência de ‘aprendiz’ (de feiticeiro) e mais remotamente um Congresso enredado em infindáveis e obscuros ‘compromissos’ (políticos, económicos e financeiros). Nenhuma destas hipóteses está disponível no imediato ou na ordem do dia. Entre estas duas posições existem, de facto, muitas outras chances de que a política norte-americana já nos tem brindado com alguns exemplos.

Na verdade, no tumultuoso ensaio apocalíptico de Donald Trump (contra o resto do Mundo) a sua administração mostrou-se apostada em romper todos os equilíbrios decorrentes do fim da II Guerra Mundial e os traumatismos consequentes tecidos à volta da queda do muro de Berlim protagonizando, nos jardins da Casa Branca, uma medíocre encenação tendo como guião os Acordos de Paris. Não será fácil trilhar este caminho. Até porque a árvore próxima (uma obsoleta ‘batalha pelo carvão’) lhe esconde a floresta (o Mundo) e estará a encobrir-lhe que a América, isto é, o influente ‘mundo dos negócios americano’, já terá optado por outros caminhos (não necessariamente coincidentes com os definidos em Paris em 2015).
 
Acresce a isto que a América não é um ‘mar de patos-bravos’. Há um ‘intelligentzia americana’ (autóctone ou importada) que está na base (e proporcionou) do desenvolvimento dos EEUU e que não se revê nas ‘fantochadas trumpistas’. É cada vez mais notório este distanciamento.

A receita da Administração Trump para recuperar ideia de uma América grande (outra vez) está cheia de contradições e, o mais grave, é subsidiária de um cúmulo de erros. Os portugueses conhecem este tipo de saudosismo fadista que foi cantado por António Mourão (“Ó tempo volta para trás”). O grande problema para o nacionalismo exacerbado e protecionismo oculto da atual Administração é precisamente o Mundo que vai despertando da sonolência e tutela imperialista (e que existe para além do propagandístico modelo do ‘american way of life’, nos dias que correm desfasado da realidade).

Na verdade, atitudes como a que tomou Trump na passada 5ª. feira, são muito mediáticas mas pouco relevantes para o Planeta. Têm, todavia, o ‘efeito contraproducente’ de tornarem o mundo político, científico e tecnológico, que está por detrás do Acordo de Paris, mais coeso e mais forte.

No Acordo de Paris 2015 negociado no âmbito da ONU (UNFCCC) não foi possível concluir um Tratado formal porque este necessariamente teria de ser ratificado pelos Parlamentos dos diferentes países. Na medida em que se compreendeu as dificuldades de Obama optou-se pela assinatura de um Acordo capaz de contornar o Congresso americano e ‘fugir’ ao duvidoso resultado desse escrutínio, porque esse órgão de poder era (e ainda é) dominado pelo Partido Republicano.
Já tinha sido assim, no tempo de Bill Clinton (1997), em relação ao Protocolo de Kyoto. Na altura, Clinton tinha a noção de que a palavra “Kyoto” era pura e simplesmente maldita para os senadores republicanos (com a maioria nessa Câmara).
O presidente G. W. Bush, sucessor de Clinton na presidência dos EUA, haveria de retirar-se deste Protocolo, invocando razões económicas. Tal facto não impediu o progressivo e imparável declínio da hegemonia americana.
No presente, Trump, incapaz de colher lições da História, caiu no mesmo erro. As consequências serão mais graves e perigosas (já que o caminho da hegemonia terá tendência a manifestar-se pela força).

Na verdade, o Acordo de Paris, foi complacente ao ponto de continuar a conceder aos EUA o papel de motor da economia mundial. Foi esta a herança que lhe deixou Barack Obama. Uma oportunidade que Donald Trump resolveu desperdiçar.

Agora – passados 20 anos sobre o protocolo de Kyoto - há terreno para mostrar à Administração Trump que, sob um nacionalismo bacoco e protecionismo egoísta, mais não fez do que meter o pé na poça. O Acordo de Paris engloba os países emergentes (BRIC’s) que, em 1997, tinham ficado de fora. É, portanto, mais vasto e mais ‘global’ mesmo depois (expurgado) da ‘charada nacionalista’ do dia 1 de Junho de 2017.

Presentemente, há, portanto, condições políticas para – o resto do mundo – substituir o Acordo por um Tratado e dar mais força aos países subscritores para ‘salvar a Terra’. Os que por motivos políticos espúrios e ausência de estratégia de desenvolvimento que colocam de fora, como é o caso da Administração Trump, são perdedores anunciados. Não será preciso, para os americanos, uma grande imaginação para perceber isto. Continua bem presente no imaginário yankee o ‘fantasma de Detroit’.
Na passada quinta-feira foi dado um passo gigantesco para a ‘detroitização massiva’ da América.

“One big step was given…”. The first or the last?

Comentários

Manuel Galvão disse…
Não me parece que o que se passa seja assim tão elaborado. Para mim é mais simples:

Os “américas”, via OPEP, esticaram a corda demais. O barril de crude chegou aos 100 dólares o que fez com que os consumidores procurassem alternativa. Agora que essas alternativas estão em marcha os gananciosos torcem a orelha e não deita sangue!

O pior é que a credibilidade do dólar como moeda de reserva dos países pobres só tem futuro se o staus quo do negócio petrolífero se mantiver como foi até aqui. Por isso a OPEP baixou a produção na esperança de que o preço subisse. Mas, pasme-se,o preço não só não subiu como ainda desceu mais! fruto do vício de certos países produtores que se habituaram a finenciar os seus gastos públicos com as receitas do petróleo (Venezuela, Brasil, etc.). Esses, mesmo a 5 tostões o barril, venderiam todo o petróleo que têm.

Para adubar o caldo deram entrada no mercado, de rompante, enormes quantidades de petróleo (e gás) de xisto... produzidos sobretudo nos EUA. Daí o boicote ao Irão não ter nada a ver com o projeto de energia atómica desse país.

O que Trump está a fazer acima de tudo é a defender a estabilidade do dólar, até porque em termos técnicos (petróleo à parte), 1 dólar papel não vale mais que uma folha de papel higiénico.

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